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  • Luciano Braz

O DESAFIO DA FORMAÇÃO DE PREÇOS HOSPITALARES

Atualizado: 31 de Mai de 2018



Há alguns dias atrás, após ter postado sobre os impactos do desuso do SIMPRO e do BRASINDICE no Brasil, uma amiga médica e experiente gestora, ligou-me para parabenizar e fazer algumas considerações – finalizamos a conversa discutindo sobre as dificuldades na obtenção de um sistema coerente para as cobranças hospitalares.

E é sobre esta questão que quero tratar neste texto, detalhando um pouco mais sobre a problemática que afeta somente hospitais ou clinicas de pronto-atendimento com funcionamento de 24 horas. Então vamos lá:


A primeira questão refere-se à cobrança das contas hospitalares, que na sua composição entre honorários médicos, diárias e taxas, materiais/medicamentos/OPME (as famigeradas órteses, próteses e materiais especiais), estas últimas respondem por cerca de 50% do total da conta hospitalar. Ou seja, os hospitais são na verdade grandes vendedores de medicamentos e materiais hospitalares!


Desde os anos 70, quando se institucionalizou no sistema privado de saúde do Brasil esta política de comercialização, com a conivência de todos (hospitais, operadoras de planos de saúde, fornecedores, órgãos representantes de classe e do próprio governo), que quase se oficializou o uso da codificação SIMPRO/BRASINDICE pela TUSS – Terminologia Unificada de Saúde Suplementar desenvolvida pela ANS – Agência Nacional de Saúde.

E porque não muda? Toda vez que participo de congressos na área escuto a mesma coisa: “praticar preços com base em formação de custos”, ou “os hospitais devem sobreviver da hotelaria”, enfim, são teorias corretas e coerentes, porém pouquíssimos as colocam em prática... Aí mantem-se a pergunta – e porque não muda?

A resposta é bem complexa, pois na composição dos preços dos serviços hospitalares há fatores que desafiam os mais renomados gestores.


O primeiro fator é o que chamo do “custo da prontidão” – imagine o quadro, tomando como exemplo um hospital que montou equipes de pronto-socorro e UTI, dimensionou equipes médicas, de enfermagem, e outros membros do chamado outros corpos profissionais (Nutricionistas, Fisioterapeutas, Psicólogos, Farmacêuticos entre vários outros), estruturou as equipes técnicas (de enfermagem ,de laboratório, de imagem, de higienização, de recepção, entre outros), estocou materiais e medicamentos, adquiriu e mantém caríssimos equipamentos, enfim, disponibilizou todos os recursos para a assistência de urgência e emergência. E se os Pacientes não aparecerem? Quem paga a conta? As operadoras pagam apenas pelos serviços prestados e ninguém o remunera pelos serviços disponibilizados. Esta “ociosidade” não advém de serviços ruins que afasta a procura pelos Pacientes, é uma ociosidade que afeta TODOS os hospitais, sem qualquer exceção – é o caso dos finais de semana em que a taxa de ocupação de leitos cai terrivelmente (a maioria das cirurgias de baixa complexidade ocorrem durante a semana, com os Médicos prescrevendo alta nos finais de semana), e também pelo fato de que, as internações de finais de semana são, na sua grande maioria, de urgência e emergência, sendo muito raros os internamentos eletivos. Outro exemplo que ilustra esta situação, refere-se aos prontos-socorros – durante a noite ou de madrugada são pouquíssimos Pacientes, porém toda a infraestrutura está lá, de prontidão!! E quem paga a conta?


Outro fator refere-se à propagada “cobrança pela hotelaria”, onde escuto defesas, a meu ver, descabidas. Comparar um leito hospitalar com um leito de hotel é injusta, pois nos leitos hospitalares temos a assistência médica-hospitalar por 24 horas, oferece-se quatro refeições (ou mais) com cardápios tecnicamente elaborados em função do “hóspede” e como diz minha amiga “nos hotéis, os hóspedes são estimulados a não sujar a roupa de cama e de banho em prol da consciência ecológica, enquanto que nos hospitais se troca várias vezes ao dia, por necessidade técnica". E ainda se tem o custo dos medicamentos que obrigatoriamente são mantidos em estoque para as urgências e emergências, que frequentemente são descartados por vencimento da data de validade – note-se que este prejuízo não decorre de estoques mal dimensionados e sim pela obrigatoriedade de mantê-los em prontidão. E quem paga a conta?


Quando digo que a comparação com hotel é descabida, me vem a lembrança das propagandas dos hotéis, com promoções do tipo “crianças acompanhando os pais não pagam”, ou “50% de desconto para hospedagem nos finais de semana”. Se fossemos adotar esta prática em hospitais, seria mais ou menos assim: “aproveite os 30% de descontos e venha para a UTI nos finais de semana (!!??)”, ou “faça sua cirurgia proctológica e ganhe uma oftalmológica de presente...”


Também já ouvi dizer que o “empacotamento” de cirurgias resolve o problema – e aí reside outra bravata! Primeiro, é que a formação dos pacotes cirúrgicos baseiam-se nos valores dos materiais e medicamentos tomando o BRASINDICE/SIMPRO como referência (e não no custo real) e segundo que, o consumo nunca é igual ao que está estabelecido no pacote; daí me lembro da frase que escuto constantemente - “Medicina não é matemática” e parece-me lógico, pois na minha ignorância de leigo, entendo que as pessoas possuem estereótipos diferentes ou as doenças podem estar em estágios diferentes, impedindo uma padronização de consumo. E esta padronização restringe a liberdade médica na escolha de materiais e medicamentos ou na realização de exames – bem, mas isto é outro assunto!

Diante deste complexo cenário, somente com princípios básicos de formação de preços é que teremos as respostas adequadas: calcular os custos de produção acrescidos do mark-up, e este último, englobando os “custos da prontidão” e o desejado lucro. Afinal, como diz a velha máxima: “Saúde não tem preço, mas tem custos!”.

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